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No CF Estremoz resiste-se: a história de um clube que não desiste do hóquei

Às nove da manhã de um qualquer dia de fevereiro, os termómetros em Estremoz não ultrapassam os dez graus. Que o Alentejo profundo é quente durante o verão toda a gente sabe. Mas só quem sente na pele (e nos ossos) o inverno alentejano é que percebe o quão inóspito ele pode ser.

O frio e o calor, contudo, não impedem Vasco Gomes, que tem oito anos e vive em Estremoz, de se levantar cedo para ir treinar ou jogar. Vasco começou a patinar aos quatro. «Tenho dois ídolos. Um deles é o meu tio Pedro Gomes que joga hóquei e me convenceu a praticar a modalidade». Entre os cinco e os seis anos Vasco teve de ser integrado nos Escolares do CF Estremoz porque não havia crianças da sua idade em número suficiente para formar uma equipa. Hoje, e uma vez que a patinagem foi introduzida em algumas escolas do concelho como Atividade Extra Curricular, o número de inscrições no hóquei do CF Estremoz aumentou.

Esta realidade, aliás, serve de prova para Dina Deus, coordenadora do hóquei em patins do CF Estremoz. Esta responsável defende que um investimento da Federação em equipamentos na promoção da modalidade, logo a partir do pré-escolar, teria um retorno imediato no número de praticantes, inscrições e receitas. Por causa deste aumento de atletas, o Estremoz, emblema quase centenário fundado em 1925, formou uma equipa de Benjamins com 10 jogadores. E o Vasco já pode treinar e jogar com meninos da sua idade. «O que mais gosto é de patinar. Gosto da sensação de deslizar livremente», explica antes de revelar que o seu outro ídolo é o argentino Panchito Velasquez.

“Impossível dizer que não ao CF Estremoz”

Rui Mata é um dos treinadores da Formação do Clube. «Sempre adorei lidar com crianças e adoro o hóquei em patins. Por isso, ser treinador é muito fácil. Ainda mais fácil se torna quando as crianças multiplicam e nos devolvem o carinho e respeito que lhes transmitimos. Mais difícil é perceber e aceitar que não está ao nosso alcance dar às crianças as condições que elas merecem». De facto, se estiver a chover na rua, estará a chover no pavilhão onde treinam e jogam. «Tenho curiosidade em saber se existe mais algum pavilhão em Portugal com prática desportiva regular e no qual chova há décadas», acrescenta.

CF Estremoz
Uma das equipas do CF Estremoz

Na verdade, a secção de hóquei em patins do Clube sobrevive à custa deste e de muitos outros sacrifícios. Em setembro de 2019 não havia quem tomasse conta de uma modalidade com mais de sete décadas de História (o hóquei surgiu no Clube em 1949). A Direção demitiu-se faltando um ano para novas eleições. Havia o perigo de acabar com o hóquei e deixar dezenas de crianças e jovens sem clube para treinar. «Convocaram-se os representantes dos diversos escalões para discutir o futuro. Eu, na altura, era delegada dos Sub-13 e sempre fui muito ativa» explica Dina Deus. A referência da antiga Diretora da modalidade fez com que fosse escolhida para coordenar a Secção até às próximas eleições.

Rui Mata é treinador porque também não conseguiu dizer que não. Tinha sido convidado para assumir a direção técnica de uma equipa por diversas vezes, mas nunca aceitou esses convites por razões profissionais. «O hóquei em patins do CF Estremoz tem uma imensa História a nível nacional. Comparar o que foi com o estado a que chegou é igual a assumir que o clube está perto da extinção. Por isso, desta vez, aceitei ser treinador», confessa.

As consequências da desertificação do interior também no hóquei

A angariação de atletas é difícil. O hóquei em patins é um desporto caro e os reduzidos recursos do Clube obrigam a que os principais patrocinadores dos atletas sejam os seus pais.

De facto, a economia da região da “ notável vila”, como muitos reis chamavam a Estremoz, vive dias complicados. «Há muita falta de emprego e poucas empresas a quem recorrer. Sabemos que os nossos patrocinadores estão connosco por amor à camisola pois também têm muitas dificuldades. Além do apoio dos pais, a atividade depende da ajuda monetária e da cedência gratuita das infraestruturas por parte do município de Estremoz. Com a falta deste, teríamos mesmo de fechar portas», explica a coordenadora. O treinador Rui Mata assume que o CF Estremoz está a anos-luz das condições que têm outros clubes. Mas, para ele, «quem tem pouco, não pede muito. Só precisávamos que as crianças tivessem as condições que merecem para a prática de desporto».

Ter a patinagem como AEC das escolas ajudou a completar equipas

O concelho conta com 14 mil habitantes. No entanto, apenas 1.400 têm idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos. «Quando terminam o ensino secundário, os jovens vão estudar ou trabalhar para fora do concelho. Não há capacidade financeira para lhes pagar, nem sequer as despesas de deslocação. Acabam por jogar noutros clubes ou desistir da modalidade e nós temos muita dificuldade em manter as equipas», refere a coordenadora.

Sem competição o hóquei definha

A falta de apoio financeiro não é, infelizmente, uma originalidade do CF Estremoz. São muitos os clubes que se deparam com este problema e a solução acaba por ser a mesma em todo o lado: as mães e os pais assumem-se como patrocinadores, diretores, seccionistas, treinadores, roupeiros e o que mais for preciso fazer. Mas estar sedeado mais perto da fronteira com Espanha do que de Lisboa tem o seu custo. A Associação de Patinagem do Alentejo regista 22 clubes filiados, mas nem todos têm hóquei e muito menos todos os escalões. Equipas sénior, por exemplo, só há duas – o CF Estremoz e o CD Boliqueime – e ambas militam na 3ª Divisão. Assim há pouca competição. Um jogo pode significar uma deslocação que, entre a ida e a vinda, chegue aos 500 quilómetros. Durante a época 2019/2020, o clube mais próximo que defrontaram foi o Castro Verde que fica a 174 quilómetros de distância. Ir e vir é multiplicar por dois… As outras deslocações foram para o Algarve. Isso faz de cada encontro uma aventura, mas também representa um encargo pesado sobre as famílias.

Dina Deus crítica a forma como a Associação de Patinagem do Alentejo tem vindo a gerir a modalidade. «Há equipas não estão inscritas por falta de treinadores certificados. Se as certificações para a sua formação pudessem ser feitas na região, evitando gastos desnecessários em deslocações e que são suportadas pelos próprios, haveria muito mais treinadores certificados. Mas a Associação não tem insistido com a Federação para colmatar esta falha» e os clubes não conseguem inscrever as equipas.

Um CF Estremoz entre sonhos e desejos

A distância não demove Vasco. «Jogar contra outros clubes é muito emocionante porque acontece poucas vezes. É cansativo porque temos que nos levantar muito cedo. Jogamos quase sempre fora de Estremoz e as equipas são de muito longe. Mas sei que é assim que posso lutar pelos meus sonhos», conta. Revela que tem, pelo menos, três sonhos: «Ser capitão, ver a minha equipa ganhar o campeonato e, um dia, jogar no Benfica».

Vasco Gomes CF Estremoz
Vasco Gomes joga nos Benjamins do CF Estremoz

É esta capacidade de sonhar que convence os pais a abdicarem de fins de semana e de muitas centenas de euros para o ajudarem a ser feliz. Vasco, contudo, além de três sonhos, tem três desejos: «Gostava que o nosso pavilhão fosse melhor. Gostava que o piso fosse de madeira, que não chovesse lá dentro, que não fosse tão frio no inverno e tão quente no verão. Além disso, gostava que tivéssemos mais jogos e que os jogos não fossem tão longe. Por fim, que houvesse mais crianças a jogar em Estremoz para podermos jogar nos escalões certos».

Resistir. Porque vale a pena

Dina Deus sabe que manter viva a chama do hóquei em Estremoz é difícil. Para ela, mais do que dinheiro, falta esperança. Anseia por ver o Pavilhão cheio de estremocenses a gritarem pelos seus atletas, mas afirma que a sua maior alegria é «assistir aos treinos da formação e vejo um novo atleta a aprender a patinar, a gostar e a querer continuar. Isso enche-me o coração de esperança».

A resistência faz parte destas gentes. A proximidade com Espanha (distam 60 quilómetros até Badajoz) fez com que se habituassem a resistir. Ajudaram Dom Dinis a manter a posse do Reino, apoiaram o mestre de Avis no final do século XIV e foram decisivos na luta pela Restauração após 1640. O FC Estremoz é o exemplo de como se faz hóquei em patins quando não se joga o “melhor campeonato do mundo”. Quando os pais são patrocinadores, diretores e delegados. Quando os atletas põem de lado a vida pessoal e jogam sem remuneração. Às vezes, pagando para jogar. Quando os treinadores são jogadores ou ex-jogadores que saem do emprego a correr para ir dar treinos de duas ou três horas várias vezes por semana.

Só que, no fim das contas, basta uma criança para fazer toda a diferença. Que importa se está frio, se é sábado de manhã e se ameaça chover? Basta ver o sorriso dessa criança a jogar hóquei em patins para se perceber que vale a pena resistir.

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