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Play-Offs na 1ª Divisão: por que é uma decisão boa e má

A Federação revelou, em comunicado, que o Campeonato Nacional da 1ª Divisão 2020/2021 será disputado em duas fases. Em primeiro lugar ocorrerá a tradicional fase regular em género de campeonato ‘todos contra todos’, em casa e fora. Depois, haverão Play-Offs para apurar o campeão nacional. 

O comunicado anuncia ainda o nascimento de uma nova prova entre os oito primeiros classificados no final da primeira volta da 1ª Divisão. Prova sem nome para já e com a desconfiança de que será disputada num formato de Taça, a eliminar. 

Percebe-se pela leitura do comunicado que, se houve unanimidade na constituição da Nova Taça, o formato de Play-Offs gerou discussão e obteve oposição. O comunicado preocupou-se em sublinhar a aprovação deste formato pela “esmagadora maioria dos presentes”. A adjetivação é desnecessária. A não ser que se queira justificar alguma coisa. 

Os Play-Offs implicam muitas alterações?

São, sobretudo, alterações que não são novidades. O formato em Play-Offs tem sido defendido por muitas vozes do hóquei nacional. Além disso, tecnicamente, os campeonatos nacionais já foram decididos neste formato em outras ocasiões. Logo nas suas primeiras edições, por exemplo, juntavam-se os vencedores da Zona Norte e da Zona Sul para decidir quem seria o vencedor. Nos últimos anos, o modelo foi usado entre 2007 e 2009.

Outras modalidades e países seguem este formato. Em Portugal joga-se assim no basquetebol e no futsal. Em Espanha e Itália o campeonato de hóquei em patins também é decidido desta forma.

Como se ocupam as vagas do calendário?

Na temporada 2019/2020 um clube da Primeira Divisão disputaria, no limite, 33 jogos, somando todas as competições nacionais: 26 jogos para o campeonato, 6 para a Taça de Portugal e 1 para a Supertaça António Livramento. A competição ocuparia 35 semanas (de 5 de outubro de 2019 a 7 de junho de 2020).

Entretanto, o Comité Técnico do Hóquei em Patins clarificou alguns contornos do que serão as competições da próxima época:

O novo modelo (excetuando a liguilha) exigirá, no máximo, 49 jogos: 39 para o campeonato, 6 para a Taça, 3 para a nova competição e 1 para a Supertaça (ainda que na próxima época, excecionalmente, esta não se dispute). São mais 33% de encontros que poderão ocupar 42 semanas de calendário, usando o basquetebol e futsal como medida.

Esta diferença de sete semanas implica mais custos operacionais e quase mais dois meses de remunerações. Numa época em que se prevê uma queda nas receitas.  Mas se as alterações ao modelo competitivo acarretarem novas fontes de rendimento, este efeito é dissipado.

É desejável um aumento da duração da competição

É verdade que um dos problemas da modalidade é a curta duração da sua época desportiva. Não permite fidelizar público e garantir um lapso de exposição razoável para que eventuais patrocinadores e parceiros se resolvam a apostar no hóquei em patins. 

No entanto, esta nova formulação pode ser injusta. Acrescentando datas para as competições europeias, o aumento do número de jornadas disputadas a meio da semana será inevitável. Este tipo de acertos de calendário prejudica sempre as equipas não-profissionais. Depois, o estender do calendário só produzirá efeitos para quem esteja envolvido nas fases decisivas dos troféus em disputa. Assumindo o histórico das últimas cinco épocas, os quatro primeiros da fase regular foram sempre os mesmos. Ou seja, excetuando os clubes de topo assumidamente profissionais, os outros participantes continuarão a ter épocas de 33 jogos. 

Com dois problemas adicionais. Por um lado, os patrocinadores vão preferir concentrar o seu investimento nos momentos de finais, não na fase regular. Quem não participar nestes momentos, ficará excluído deste bolo. Depois, e apesar de jogarem o mesmo numero de partidas que em anos anteriores, a percepção geral é de que os clubes ” não de topo” jogarão menos. Afinal, a competição oficial mantém-se no ativo sem que eles participem.

A mediatização da modalidade com os Play-Offs

Infelizmente, a mediatização massiva de uma competição desportiva em Portugal está dependente de um único fator: a presença de Benfica, Porto ou Sporting nos jogos em que se decide o seu vencedor. Se isso não acontecer, o desinteresse das televisões e restantes meios de comunicação social é quase total. O mesmo acontece com o interesse da generalidade do público. 

O caminho, agora anunciado pela Federação, é arriscado no longo prazo. Coloca a modalidade (ainda mais) dependente das vontades destes três clubes. Quantas vezes já se ouviu o argumento «por mim acabava com esta modalidade. Queria ver como eles se aguentavam se o [inserir nome de clube grande] desistisse» quando uma época desportiva não corre bem? 

Depois, este caminho elimina o interesse numa fase regular que representa dois terços da época. Um dos princípios da NBA é a sua incerteza. A sua fase regular é mediática porque não existe garantia de quem se apurará para os Play-Offs. O basquete ou futsal portugueses há anos que não conseguem mediatizar uma fase regular porque existe a convicção de ela só serve para cumprir calendário. Afinal, apuram-se sempre os mesmos… É provável que aconteça o mesmo no hóquei.

Por fim, estes jogos de decisão total têm um risco associado grande: conhecendo a realidade do desporto português, a probabilidade de existência de problemas disciplinares – dentro e fora da pista – é acrescida. É um risco reputacional que podem manchar a modalidade. Há certeza de que isso aconteça? Não. Aconteceu em jogos decisivos de outras modalidades que se decidiram desta forma? Também não. Mas é um risco que a modalidade quer correr? A resposta cabe a quem tem essa responsabilidade. 

A valorização da Taça de Portugal

O comunicado da Federação tem a grande vantagem de garantir que o novo troféu a disputar entre os oito primeiros no final da primeira volta é uma novidade. A grande notícia é que, portanto, não haverá alterações à Taça de Portugal. 

Esta competição é a menos valorizada pelo hóquei em patins português quando devia ser a mais acarinhada. Afinal, é a única em que todos jogam com e contra todos. Por isso, seria aquela que mais facilmente ganharia a adesão popular, como os ingleses bem sabem de cada vez que defendem a Taça de Inglaterra em futebol. Limitá-la a uma competição entre os primeiros da 1ª Divisão seria liquidá-la.

A nova competição anunciada em comunicado é uma espécie de Elite Cup oficial, onde os finalistas disputarão três jogos. Pode ser disputada entre uma quarta-feira e um domingo, mas terá de ser encontrado um local que sirva de sede à prova. Assim, a Federação de Patinagem precisará de encontrar, pelo menos, três clubes ou autarquias com interesse em serem sede para os seus eventos: Final Four da Taça de Portugal, nova prova disputada no final da primeira volta e Torneio Inter-Regiões. Com os custos inerentesa este tipo de provas, e sem parceiros ou patrocinadores associados, será uma tarefa difícil.

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