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A formação de base do Hóquei em Patins deve ser repensada?

A história de Rodrigo é comum na formação de base do hóquei em patins. Ele tem 9 anos e uma paixão por esta modalidade. O som da bola a bater na tabela e dos patins a travar seduziam-no. Queria ser como aqueles jogadores da seleção que era campeã do mundo. Tanto chateou os pais que lá o deixaram experimentar um treino. Quando isso aconteceu, sentiu que concretizava um sonho. 

Ao fim de umas semanas, o treinador chamou-o e aos seus pais. “O Rodrigo não quer aumentar o número de treinos?”, perguntou. “É difícil apanhar o andamento dos colegas que já cá andam há mais tempo. Ele tem jeito e assim treinamos outras coisas”. Por causa da atenção e disponibilidade deste treinador o Rodrigo não desistiu do hóquei. Não o empurraram para a baliza e não o fizeram perder a motivação até que desistisse. E assim a formação de base no hóquei em patins cumpriu o seu propósito. 

Na verdade, esta formação de base (aquela que vai até aos 10 anos) existe para responder a três necessidades. Em primeiro lugar, além de ensinar os fundamentos do jogo, é uma escola de valores e de espírito desportivo. 

Depois, é uma importante fonte de rendimento para um clube. As mensalidades das ‘escolinhas’ ou das ‘academias’ permitem manter vivas as tesourarias de muitas instituições que de outra forma não conseguiriam sobreviver. 

Por fim, é desta forma que a modalidade gera novas gerações de jogadores que alimentarão o futuro do hóquei em patins. 

A formação de base deve ter a idade como único critério de escalonamento?

No entanto, esta formação de base confronta-se com um problema: o hóquei em patins tem uma curva de aprendizagem muito acentuada. «O seu repertório motor é diferente de todas as outras modalidades. O ato de patinar, conjugado com o manejo do setique, tornam esta modalidade complexa, mas também muito produtiva para desenvolver o equilíbrio dinâmico e a coordenação de uma criança», explica Luís Duarte, treinador quatro vezes campeão do Mundo e três vezes campeão da Europa de Sub-20 e um dos organizadores das Clínicas de Verão que há mais tempo se realizam em Portugal. 

Como é evidente, uma criança que comece a patinar aos 4 anos chegará aos 7 anos com competências técnicas específicas para o hóquei em patins superiores a um atleta que se inicie a patinar com essa idade.

E se existem diferenças acentuadas num treino, pouco sentido fará a disputa de jogos, no mesmo escalão, entre atletas com desigualdades técnicas tão evidentes. Assim, adotar um modelo de formação de base baseado apenas na idade de uma criança será o princípio mais eficaz? 

Inês Vigário, Mestre em Psicologia do Desporto, considera que o escalonamento pela idade está correto pois «respeita o potencial de desenvolvimento de um atleta. No entanto, também faz sentido considerar o critério da competência técnica em desportos com uma iniciação muito precoce. Não considerar este aspeto na constituição de um grupo de treino poderá resultar num abrandamento da evolução e, até, em falta de motivação». 

É possível um modelo diferente?

Outras modalidades da Federação de Patinagem usam uma análise técnica em complemento do escalonamento por idades. A patinagem artística tem no seu esqueleto de evolução competitiva (os “testes”, que vão desde a Iniciação até aos níveis avançados das várias especialidades) uma sequência de competências, divididas por patamares, que o atleta tem de dominar antes de passar para o nível seguinte. 

Malcom Gladwell publicou Outliers em 2008. Esta obra estudou o sucesso nas mais variadas áreas de atividades, incluindo o desporto, e tornou-se um bestseller mundial. Ao analisar as datas de nascimento dos jogadores de topo de hóquei no gelo canadianos chegou à conclusão de que uma proporção mais do que estatisticamente normal nasceu nos primeiros meses do ano. À procura de uma explicação, adiantou a hipótese de que, nos escalões mais novos, há uma vantagem física evidente dos que nascem mais perto do início do ano civil. Essa vantagem física faz com que pareçam ser melhores e levem os mais novos a desistir por não se sentirem tão competentes.

Um estudo de 2019 publicado no Journal of Human Kinetics analisou jogadores da formação de futebol e aponta para a mesma conclusão: «ser relativamente mais velho [i.e., ter nascido no primeiro ou segundo trimestres do ano] e simultaneamente mais avançado em termos de maturidade, corresponde a uma vantagem substancial em determinados aspetos relacionados com a aptidão para o futebol». O estudo acrescenta ainda que «estes constrangimentos temporários são, muitas vezes, negligenciados pelos treinadores e pelas organizações desportivas». 

Desta forma, será lícito dizer que um modelo de formação de base centrado apenas na idade e na competição formal (as Taças e Campeonatos Regionais ou Nacionais) pode criar grandes desigualdades entre atletas. Ao fazê-lo, impossibilita que as crianças treinem e joguem com os pares que estão no mesmo estágio evolutivo, impede-as de reforçar a sua autoconfiança, o prazer pela modalidade e a vontade em melhorar.

As competições que começam cedo

A realização de encontros informais com base em critérios de competência, diferentes do escalonamento por idades dos jogos formais (definidos como as competições das Associações Regionais) podem ser muito proveitosos. «Nesses encontros informais, as crianças patinam mais tempo, travam mais, passam e recebem a bola mais vezes, fintam mais vezes. A evolução será sempre superior a um jogo formal», salienta Luís Duarte. 

EscalãoIdadeJogos formaisJogos informais e Mini Hóquei
Bambis430
Bambis53015
Bambis64015
Benjamins72023
Benjamins83323

Fonte: Luís Duarte | Amostra de 22 atletas do mesmo clube entre 2011/2012 e 2016/2016 | Todas as crianças começaram a jogar entre os 4 e os 6 anos de idade.

16 crianças (73%) continuam a jogar hóquei em patins (2 dos atletas desistiram porque praticavam outra modalidade. Optaram por essa alternativa e ainda a praticam).

Em outras modalidades de pavilhão, a regra é a prática informal de jogos e competições nas idades mais baixas. No voleibol, o início, aos 6/7 anos, faz-se com encontros mensais de 2×2. O basquetebol inicia aos 6/7 anos com jogos informais de 3×3. No andebol, o início, aos 5/6 anos, é feito com encontros quinzenais de 4×4. 

Ao contrário, o hóquei em patins insiste na realização de competições formais desde muito cedo. Alexandra Medeiros, psicóloga no Hospital de Santa Maria, considera que «é muito difícil saber a partir de que idades deve haver campeonatos. Entre os 6 e os 10 anos, uma criança aprende sozinha, está focada em si. Só a partir dos 10 anos é que os pares ganham importância. Assim, só a partir dessa idade é que ser competente perante os outros se torna relevante. Até aí a competição pode ser desadequada ou irrelevante». 

Luís Duarte sugere, a par da competição formal, a realização de encontros informais de 3×3 nos Bambis (com guarda redes ou não) e Benjamins e de 4×4 nos Escolares, em que as equipas também seriam emparelhadas por níveis de competência. 

O papel dos treinadores na formação de base

O trabalho dos treinadores e das estruturas que os apoiam são imprescindíveis para balizar, com objetividade, o momento evolutivo de cada atleta. Inês Vigário reconhece que os treinadores são prioritários e fundamentais, mas «também são ‘paus para toda a obra’. O ideal seria deixar o treinador entregue ao seu trabalho e integrar outros especialistas numa equipa técnica».

De qualquer forma, Luís Duarte explica que ‘As primeiras etapas da formação do jovem hoquista’ são discutidas no curso de treinadores de nível 1. Aqui conhecem o Desenvolvimento a Longo Prazo, de Balyi e Hamilton, e os seus cinco estágios de desenvolvimento: o divertimento com fundamentos, aprender a treinar, treinar para treinar, treinar para competir e treinar para vencer. Em 2019, surgiu um outro modelo, o ‘Desenvolvimento Físico do Jovem’, de Loyde e Oliver, em que se trabalham as habilidades motoras fundamentais e as habilidades específicas do desporto. «Qualquer treinador deve elaborar o treino com estas premissas, tendo em conta os níveis morfológicos e psicológicos da criança e o seu potencial de desenvolvimento». 

Por fim, o fomento do diálogo com os pais é muito importante para traçar um caminho para as crianças. Se têm determinado nível de competências no início da época, explica-se que o objetivo é chegar a junho com outro perfil. Jogar mais ou menos, ganhar muito ou pouco e os golos marcados deixam de ser a balança do sucesso. «No desporto, o insucesso é garantido. É fundamental ajudar a criança a desenvolver estratégias para lidar com esse insucesso», salienta Alexandra Medeiros. Porque é a maneira como se lida com o insucesso que dita a longevidade da prática desportiva.

E, sobretudo, é fundamental ver as crianças divertidas a jogar hóquei. Nestas idades, isso não é o mais importante. É a única coisa que interessa.

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